Ecletismo e boa música
Por João Vitor Cirilo

Considerada um dos grandes talentos da música mineira, Selmma Carvalho segue na estrada e lançará mais um trabalho.

A cantora Selmma Carvalho é a entrevistada da vez no Jornal Lince. Considerada por muitos uma das grandes cantoras brasileiras, a nova-limense teve o bom trabalho colocado em evidência em 1997, quando foi indicada ao Prêmio Sharp de Música, como Cantora Revelação. De lá pra cá, três álbuns divulgados. Em 1999, gravou "Cada lugar na sua coisa", e, em 2005, veio "O que será que está na moda?", último CD lançado. Mais um trabalho será finalizado em 2013, com novidades.

No bate-papo com o Lince, Selmma falou sobre sua carreira, o cenário musical em Minas e no Brasil, e também sobre seu novo CD.

P: Para muitos críticos e produtores, como Ezequiel Neves, você é considerada uma das melhores cantoras brasileiras, mas sua carreira ainda parece mais regionalizada, mais dentro dos limites de Minas. Você nunca teve planos de se lançar nacionalmente?
R: Sim, sem dúvida! Que artista não quer projeção nacional?! Quando Ezequiel fez essa afirmação, tinha acabado de lançar meu primeiro CD. Ele foi indicado ao Prêmio Sharp e, com isso, meu primeiro trabalho ficou conhecido fora de Minas também. Fiz shows em outros estados e me projetei um pouco mais. Meus outros dois CDs foram patrocinados por Leis de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e, talvez por isso, acabei realizando mais shows para divulgação deles em Minas. Recentemente, tive a felicidade de trabalhar com um ótimo produtor de São Paulo, o Flavio Alves, e então fiz muitos shows em São Paulo, cidades vizinhas e fui também ao Nordeste. Já me apresentei também na Espanha, em 2012.

P: Desde seu primeiro disco, o ecletismo, que depois virou moda entre a maioria das cantoras brasileiras, já era uma característica sua. Você nunca pensou fazer um disco mais conceitual, que contemplasse a obra de um só autor, por exemplo?
R: Claro. Já pensei em contemplar um artista sim, mas ainda não é o momento, é um projeto futuro.

P: Do primeiro ao último CD lançado, o que mudou em seu trabalho?
R: Conheci pessoas muito importantes no meio musical, estreitei laços, aprendi muitas coisas e continuo aprendendo. Tenho hoje mais cuidado na escolha do repertório, na escolha também da pessoa que vai produzir o CD, assinar os arranjos. Gosto de ousar. Por isso mesmo, escolho pessoas que tenham afinidades comigo, buscar sempre algo diferente, outros timbres e sonoridades. É fundamental essa pesquisa, hoje e sempre. A vida é movimento e amadurecimento; a evolução é conseqüência.

P: Você acha que, pelo fato de ser mineira e de morar em Belo Horizonte, tem obrigação de cantar música de autores mineiros?
R: Nunca senti essa obrigação. Nos quatro CDs gravados, interpreto canções de pessoas de todo o Brasil e claro, de Minas também.

P: Nesse sentido, como você definiria hoje o cenário da música em Minas? Você acha que nossas referências ainda são o Clube da Esquina ou alguma coisa nova surgiu depois deles ou a partir deles?
R: Muita coisa aconteceu depois do clube da esquina, novas sonoridades, timbres. O clube da esquina tem seu valor, e ainda é referência para alguns artistas.

P: E qual a sua relação com a internet e essa nova realidade do mercado? Nos Estados Unidos, no Japão e em alguns países da Europa, o CD voltou a ter espaço e já se fala na reabilitação das gravadoras, ao contrário do que acontece no Brasil.
R: A internet hoje é tudo, não podemos mais viver sem ela, estamos conectados o tempo todo com o novo que surge. Tudo muito rápido, muitas informações. Com certeza as músicas são copiadas sim. Mesmo na cena independente, isso acontece com freqüência. Acho muito importante esse espaço que se dá ao cd, pois todas as informações estão contidas ali, toda a ficha técnica. Copiar um cd é tão comum hoje em dia, mas o encarte é fundamental. É ótimo saber quem produziu, quem assinou os arranjos, saber que músicos participaram, instrumentos utilizados e outras curiosidades.

P: Qual sua opinião sobre o atual cenário musical nacional? Muitos consideram que o nível dos cantores caiu bastante... Há quem diga que as cantoras, principalmente, parecem cada vez mais iguais. Quem é que você ouve hoje? Quais foram as suas principais influências?
R: Temos muitos artistas fazendo trabalhos originais, consistentes, ousados... basta procurar e ficar antenado com o novo. A internet é o lugar. Na TV, quase nada, muitas repetições de modelos e ritmos. Existe sim, a meu ver, um jeito novo de cantar. Interpretações mais viscerais como fizeram Elis, Cássia Eller e tantas outras, já não acontecem com tanta freqüência. Hoje, estão mais suaves. Pessoas que gosto de escutar e que de alguma forma me influenciam, Sara Tavares, cantora e compositora portuguesa com ascendência cabo-verdiana, Mayra Andrade, outra cabo-verdiana, Cezária Evora e Lenine.

P: Muitos também reclamam da desinformação ou pouca habilidade dos produtores, que trabalham com o óbvio. Por exemplo, há uns cinco ou seis anos, todas cantavam músicas do Zeca Baleiro, que estava no auge. O mesmo aconteceu com o Cazuza. Mas há autores importantes que permanecem quando inéditos e são ignorados. Em um de seus discos, você interpretou “Imitação”, um dos sambas mais bonitos do Batatinha, que é um compositor que quase só é conhecido na Bahia. Também fez uma releitura muito oportuna de “Casaco Marrom”...
R: O Zeca Baleiro sempre foi um cara muito generoso, e seu talento conquistou o coração feminino. Natural muitas terem cantado suas canções. Eu mesma já gravei duas canções dele, uma delas ainda inédita na minha voz, nem o Zeca gravou (“Se você me ama”). O óbvio é o que a “grande” mídia mostra.

P: Tem novidade vindo por aí, certo? Dá pra falar um pouco sobre o novo álbum?
R: Muitas novidades. A principal delas é me lançar como compositora, com duas músicas autorais e duas em parceria com Sergio Moreira e Vander Lee/Paulo Santos. E claro, continuando a interpretar canções de compositores da nova geração como Jerry Espíndola e sua irmã, Alzira E, Fred Martins (Niterói) e Francisco Bosco (Rio). De Minas, Ricardo Koctus (Pato Fu), Samuel Rosa/Chico Amaral, Jota Veloso, de Salvador, José Carlos Guerreiro, de SP, e duas regravações de músicas já consagradas e um pouco esquecidas, dando a elas novíssimos arranjos, bem diferente dos originais. Muitas participações especiais: Chico Cesar, Sergio Perere, Fred Martins, e as vozes de Babaya, Lu Braga e Celinha Braga. O arranjador e produtor do foi o músico multi-instrumentista Rogério Delayon, que assinou 11 arranjos e produziu também meu terceiro álbum (“O que será que está na moda?”). Tuco Marcondes também fez uma linda participação, assinando um arranjo.

Jornal Lince
Julho/2013